As leucenas (Leucaena leucocephala) são árvores exóticas originárias da América Central, mas hoje amplamente espalhadas pelo Brasil e toda porção tropical do planeta. De crescimento rápido e extremamente rústicas, elas se tornaram presença frequente em terrenos baldios, áreas degradadas, inclusive em diversos espaços do paisagismo urbano. Apesar de serem invasoras altamente indesejadas em várias situações, ela pode apresentar potencial de uso em determinados contextos específicos da logística urbana. Este artigo não tem a intenção de defender o uso das leucenas no paisagismo urbano, mas promover uma reflexão sobre suas possibilidades em alguns casos.
Os potenciais benefícios das leucenas
Entre os principais pontos positivos do uso das leucenas está seu crescimento acelerado, que garante sombra em pouco tempo em ruas, praças e outras áreas de circulação. Essa característica também contribui para a melhoria microclimática, ajudando a reduzir as ilhas de calor típicas das cidades e que tendem a se intensificar com as mudanças climáticas. Em área urbana, o potencial invasor das leucenas é baixo, já que ou suas sementes caem em solo cimentado e não brotam ou as poucas que nascem nos canteiros são facilmente suprimidas pela manutenção das prefeituras via roçadeiras e capinas.
Por ser uma leguminosa fixadora de nitrogênio, as leucenas enriquecem o solo com este nutriente, o que pode trazer algum benefício para áreas empobrecidas e degradadas. Além disso, sua biomassa verde abundante pode ser utilizada como adubo verde ou até mesmo forragem em ambientes periurbanos, além de serem nicho de algumas espécies.
Outro aspecto relevante é sua resiliência: a espécie suporta solos pobres, seca, podas frequentes e queima criminosa com rebrotas vigorosas, características valiosas em ambientes urbanos hostis. No paisagismo, pode cumprir funções adicionais como cercas-vivas de baixo custo e baixa necessidade de manutenção, barreiras físicas, visuais e até acústicas. Por fim, há ainda o argumento estético: mesmo com limitações, uma área arborizada por leucenas é visualmente mais agradável do que terrenos baldios dominados por mato seco e suscetíveis ao fogo.
Os impactos e riscos das leucenas em áreas verdes
As leucenas são consideradas uma espécie altamente invasora, capaz de se espalhar rapidamente e competir com plantas nativas, reduzindo a biodiversidade. Além disso, apresenta grande dificuldade de controle, já que suas sementes e rebrotas são persistentes, dificultando a erradicação. O plantio de leucenas próximo de áreas naturais é altamente não recomendado.
Sob o ponto de vista estético, embora garanta verde em áreas degradadas, sua copa irregular, tronco pouco robusto e frutos marrons abundantes podem ser vistos como ornamentalmente inferiores em comparação à maioria das árvores nativas. Outro risco é a uniformização da paisagem: quando não há planejamento, as leucenas tendem a dominar completamente os espaços, criando verdadeiros "desertos verdes" – áreas com baixa diversidade vegetal e dominada por uma única espécie.
Reflexão: existe potencial paisagístico nas leucenas?
Diante do cenário de potencialidades e riscos apresentado, surge o dilema: há situações em que o uso das leucenas pode ser aceitável no paisagismo urbano? Seria viável utilizá-las em contextos específicos, como os casos de terrenos baldios periféricos, pobres e constantemente atingidos por fogo, onde o plantio de espécies nativas seria impraticável? Elas seriam uma opção viável de otimizar o verde urbano onde há hostilidade extrema. Outra potencialidade seria o uso de leucenas em arborização urbana (distante de parques e áreas naturais), pelo baixo custo.
E, aqui, uma questão para especialistas: é viável o uso das leucenas, de forma provisória, para recuperação de áreas degradadas, até que espécies nativas possam se estabelecer posteriormente? É possível equilibrar os benefícios imediatos – sombra, biomassa, melhoria do solo – com os riscos ecológicos a longo prazo?
Em suma, as leucenas representam um paradoxo no paisagismo urbano: ao mesmo tempo em que podem oferecer soluções rápidas, baratas e funcionais para áreas hostis, também carregam riscos significativos para a biodiversidade e para a qualidade paisagística. Diante disso, seu uso deve ser considerado apenas em situações muito específicas, com planejamento criterioso e caráter provisório, sem jamais substituir a prioridade de investir em espécies nativas, mais seguras e ecologicamente adequadas.
Pracinha adornada com uma "cortina de leucenas" na via 240, região norte de Belo Horizonte - MG. 31/05/2024