As plantas medicinais acompanham a história da humanidade desde muito antes de Cristo e do surgimento da escrita. Povos tradicionais de diferentes regiões do mundo, como os indígenas e quilombolas brasileiros, desenvolveram, ao longo de milênios, um vasto conhecimento sobre o uso terapêutico de folhas, cascas, raízes, flores e sementes, observando efeitos no corpo humano e na saúde coletiva. Esse saber empírico e histórico, transmitido entre gerações, tornou-se a base de muitos sistemas médicos tradicionais e, mais recentemente, passou a ser considerado em universidades, como na ciência botânica, na farmacologia, na medicina e na saúde pública. Muitas vezes, representa o único recurso terapêutico de comunidades e grupos étnicos e para populações de países em desenvolvimento.
No Brasil, país da maior biodiversidade vegetal do planeta (15 a 25% do número total de espécies no mundo), as plantas medicinais ocupam papel importante tanto na cultura popular quanto, mais recentemente, nas políticas de saúde e conservação: em 2006, o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. No âmbito no paisagismo, a integração dessas espécies surge como uma abordagem contemporânea que une estética, funcionalidade ecológica, educação ambiental, saúde e bem-estar humano, transformando jardins e áreas verdes em espaços tranquilos, bonitos e promotores da saúde física e mental, inclusive como alternativa para reduzir o uso de medicamentos convencionais.
Árvores-avenca encontradas no jardim sensorial e medicinal do Inhotim (Brumadinho - MG). 02/11/2022
Arruda saudável cultivada em vaso na cidade de Belo Horizonte. Apesar de em local sombreado, há muita luminosidade sobre ela. 05/02/2024.
Breve histórico e consolidação científica
O uso de plantas medicinais é documentado em civilizações antigas, como egípcios, chineses, gregos e povos indígenas e quilombolas das Américas. No contexto brasileiro, o conhecimento resulta da interação entre saberes indígenas, africanos e europeus, formando uma tradição fitoterápica rica e diversa, que é transmitida entre as gerações. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece, desde a década de 1970, o valor das práticas alternativas e complementares como recurso terapêutico, o que estimula países em desenvolvimento a terem um melhor aproveitamento de seus recursos naturais.
Com o avanço da Ciência metódica nos últimos séculos, esse conhecimento passou a ser estudado de forma sistemática. Instituições de pesquisa, como centros universitários e órgãos oficiais de pesquisa agropecuária (como a Embrapa), utilizam estes saberes como catalisadores de novas descobertas, uma vez que partem de evidências consolidadas, o profundo conhecimento da natureza pelos povos primitivos, bem como de seu potencial químico, para promoverem estudos direcionados. Os cientistas fazem a identificação botânica correta das espécies, o estudo de seus princípios ativos, as indicações terapêuticas, as formas seguras de uso e limites de toxicidade. Esse processo é fundamental para diferenciar o uso tradicional responsável de práticas potencialmente perigosas.
Principais famílias botânicas de plantas medicinais
Diversas famílias botânicas concentram espécies com reconhecido potencial medicinal, muitas delas amplamente utilizadas também no paisagismo:
Conceitos fundamentais: paisagismo funcional e medicinal
O paisagismo com plantas medicinais é, também, funcional. As plantas envolvidas nesse tipo de projeto cumprem múltiplos papéis: ornamentais, ecológicos, educativos e terapêuticos. Jardins medicinais, também chamados de jardins de cura, podem ser implantados em quintais, escolas, parques urbanos, unidades de saúde, praças, empresas, comércios e até condomínios, promovendo o contato direto das pessoas com a biodiversidade. Atualmente, há jardins desse tipo em alguns hospitais, como o São Lucas, em Belo Horizonte
É importante, também, priorizar o uso de espécies nativas e adaptadas ao clima local, reduzindo a necessidade de insumos externos, como fertilizantes químicos e defensivos, fortalecendo a resiliência ecológica dos espaços verdes e as funções e serviços ecossistêmicos que oferecem ao entorno.
Formas de uso das plantas medicinais
As plantas medicinais podem ser utilizadas de diversas formas, sempre com orientação adequada:
É fundamental destacar que o uso medicinal deve respeitar doses, indicações e contraindicações, pois “natural” não significa necessariamente “seguro”. Basta pensar que cogumelos venenosos são naturais e que a diferença do remédio para o veneno é a dose. A correta identificação botânica da planta é indispensável para evitar erros graves.
Alguns exemplos amplamente utilizados em jardins medicinais e paisagísticos incluem:
É importante consultar a literatura especializada (livros, estudos científicos) ou pessoas experientes no assunto para orientação. O Brasil conta com a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse do Sistema Único de Saúde (RENISUS), o que é uma forma de apoio ao cidadão neste tema.
Plantas medicinais como ferramenta educativa e ecológica
Além dos benefícios terapêuticos, jardins com plantas medicinais cumprem papel importante na educação ambiental, resgatando saberes tradicionais, incentivando o uso consciente dos recursos naturais, reduzindo a necessidade de uso de fármacos industrializados, promovendo a valorização da flora local e contribuindo para uma cidade mais verde e resiliente. Esses espaços também favorecem a biodiversidade, atraindo polinizadores, insetos benéficos e outros organismos essenciais ao equilíbrio ecológico.
Ao integrar plantas medicinais ao paisagismo, cria-se uma ponte entre ciência, saúde física e mental, cultura e natureza. Mais do que elementos decorativos, essas plantas transformam jardins em espaços de cuidado, cura, contemplação, relaxamento, meditação e conexão com os ciclos naturais, reforçando uma relação mais saudável e consciente entre as pessoas e o ambiente que as cerca.
Literatura de apoio: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/FARB-BCDHTQ/1/disserta__o___rafaela_miranda_pessoa.pdf