Biologia da Paisagem

Favo de mel da abelha Apis.

Apicultura, mel e própolis: como as abelhas sustentam ecossistemas e paisagens

As abelhas tiveram a sua origem há 125 milhões de anos, pouco depois do surgimento das plantas com flores (135 a 140 milhões de anos atrás). Entre as muitas funções e aplicações destes insetos, está a apicultura, que consiste na criação racional de abelhas do gênero Apis, especialmente Apis mellifera (abelhas africanizadas), com o objetivo principal de produzir mel, própolis, cera, pólen e outros derivados. Este gênero de abelhas tem sua origem provável na África Tropical e, atualmente, está distribuído por todo o mundo. O termo “africanizado” deve-se ao cruzamento de raças europeias já existentes aqui com a raça africana que chegou ao país em meados do século XX. 


Existem várias subespécies ou raças destas abelhas distribuídas pelo mundo e esta é a única espécie do gênero presente no Brasil. Conforme a Epagri-Ciram, além desta, existem outras 8 espécies desse gênero no mundo: as abelhas melíferas gigantes A. dorsata e A. laboriosa; a abelha melífera indiana A. cerana; as abelhas melíferas anãs A. florea e A. adreniformis; as abelhas melíferas malasianas A. koschevnikovi e A. nuluensis e a abelha melífera de Sulawesi, A. nigrocincta. Embora frequentemente associada apenas à produção de alimentos, a apicultura possui um relevante papel ecológico e ambiental, que será discutido nas próximas linhas. 


Sob o ponto de vista ambiental, o principal serviço ecossistêmico prestado pelas abelhas é a polinização. Grande parte das espécies vegetais com flores dependem, em algum grau, da ação das abelhas para sua reprodução e a Apis mellifera está incluída. Ambos grupos (plantas e polinizadores) evoluíram juntos em processo conhecido como co-evolução e muitas espécies são interdependentes atualmente, como são os casos em que uma flor está “moldada” para encaixar perfeitamente o corpo de determinada abelha, por exemplo.  


No Brasil (e no mundo como um todo), culturas agrícolas, espécies florestais nativas e plantas ornamentais se beneficiam diretamente da presença dessas abelhas, que aumentam a produção de frutos, de sementes e promovem a manutenção da diversidade genética das plantas. Assim, a apicultura contribui para a estabilidade dos ecossistemas naturais e também para a produtividade agrícola e, consequentemente, para a sustentabilidade. 


Em áreas naturais e semi-naturais, como fragmentos florestais, matas ciliares, parques urbanos e corredores ecológicos, a presença de colmeias favorece a regeneração da vegetação e o fortalecimento das cadeias e teias ecológicas. Segundo a Embrapa, sistemas produtivos que integram apicultura à conservação ambiental apresentam maior eficiência ecológica, pois a atividade não exige desmatamento, uso intensivo do solo ou aplicação de insumos químicos agressivos. É uma solução baseada na natureza. 


Mel: produto natural e indicador ambiental 

O mel é o produto mais conhecido da apicultura e resulta da transformação do néctar floral coletado pelas abelhas. Sua composição varia conforme a flora disponível, o clima, a espécie produtora e a paisagem ao redor das colmeias. Por esse motivo, o mel é também um indicador indireto da qualidade ambiental, refletindo a diversidade e a sanidade das áreas verdes visitadas pelas abelhas. 


Ambientes ricos em espécies vegetais nativas tendem a produzir méis mais complexos, com maior diversidade de compostos bioativos. Paisagens heterogêneas — com florestas, savanas, áreas de campo, jardins e sistemas agroflorestais — são fundamentais para uma produção de mel estável e de qualidade. Em contrapartida, ambientes empobrecidos (como monoculturas), degradados ou excessivamente urbanizados reduzem a oferta de recursos florais, impactando diretamente a saúde das colônias.  


Por esse motivo, em áreas urbanas, o incentivo à presença de jardins residenciais e públicos, praças, arborização de ruas, parques e fragmentos florestais deixam todo o ambiente mais complexo e biodiverso, o que favorece a produção de mel dentro das cidades e os demais benefícios ecossistêmicos associados. Dessa forma, o plantio de uma árvore ou a manutenção de um jardim por um munícipe traz benefícios que vão muito além dos individuais. 


Própolis: defesa da colmeia e reflexo da vegetação 

Outro produto de grande relevância ecológica e econômica é o própolis. Produzido a partir de resinas vegetais coletadas de brotos, cascas e exsudatos de plantas, o própolis é utilizado pelas abelhas para vedar, proteger e higienizar a colmeia. Sua composição química também está diretamente relacionada às espécies vegetais disponíveis na paisagem. 


No Brasil, onde há grande diversidade de formações vegetais, a própolis apresenta variações significativas, como o própolis verde, associado principalmente a espécies do gênero Baccharis. A qualidade e as propriedades biológicas do própolis dependem da conservação das áreas verdes e da presença de plantas nativas produtoras de resinas, reforçando a ligação direta entre apicultura e paisagem. 


Favo de mel da abelha Apis.

Favo de mel recém retirado de uma colmeia da abelha do gênero Apis. Ao fundo, a APA Parque Cataguás, em Contagem (MG).

Própolis da abelha Apis.

Própolis retirado da colmeia da abelha do gênero Apis.

Apicultura, paisagismo e áreas verdes 

A relação entre apicultura e paisagismo é cada vez mais reconhecida, especialmente em contextos urbanos e periurbanos. Jardins bem planejados, públicos e privados, parques, praças, arborização de ruas e framentos florestais com diversidade de espécies floríferas funcionam como verdadeiros refúgios alimentares para polinizadores. A inclusão de plantas melíferas e resiníferas no paisagismo contribui tanto para a estética quanto para a funcionalidade ecológica desses espaços. 


O ideal é o uso de espécies nativas adaptadas ao clima local, que ofereçam floração escalonada ao longo do ano, garantindo alimento contínuo às abelhas. Dessa forma, as áreas verdes deixam de ser apenas elementos decorativos e passam a integrar redes ecológicas urbanas, favorecendo a biodiversidade e os numerosos serviços ecossistêmicos associados. 


Além disso, a apicultura pode ser integrada a projetos de educação ambiental, conservação de fragmentos florestais e recuperação de áreas degradadas, uma vez que a presença de colmeias incentiva a proteção da vegetação ao redor, por meio da maior produção de frutos e sementes e do favorecimento da reprodução sexuada. 


Uma atividade produtiva alinhada à conservação 

Diferentemente de muitas atividades econômicas, a apicultura não degrada o ambiente quando bem manejada — ao contrário, estimula a conservação da vegetação e da paisagem, o que torna a atividade promissora para conciliar geração de renda, produção de alimentos e preservação ambiental, tanto em áreas rurais quanto urbanas. 


Em um cenário de perda acelerada de habitats, mudanças climáticas e declínio de polinizadores, fortalecer a apicultura significa investir na saúde dos ecossistemas. Mel e própolis, mais do que produtos naturais, são expressões diretas da relação equilibrada entre abelhas, plantas e paisagens. Assim, a apicultura se consolida como uma atividade estratégica para a sustentabilidade ambiental e para a construção de territórios mais verdes, resilientes e biodiversos. 


Literatura: EPAGRI-CIRAM (Santa Catarina). Abelhas africanizadas. Disponível em: https://ciram.epagri.sc.gov.br/apicultura/abelhas-apis.html. Acesso em: 30 dez. 2025.  

Deixe um comentário