Biologia da Paisagem

Campo Rupestre no Parque Natural Municipal do Tabuleiro.

Campos rupestres

Os campos rupestres (ou Neotropical montane grasslands, em inglês) são ecossistemas ou fitofisionomias predominantemente campestres típicas dos domínios do Cerrado, da Caatinga e da Mata Atlântica do Brasil, em áreas montanhosas acima de 900m de altitude. É mais frequente na Cadeia do Espinhaço, que se estende por cerca de 1.100 km entre a Serra da Jacobina (10°00’S), na Bahia, até a Serra do Ouro Branco (20°35’S), em Minas Gerais, mas também ocorrem como ilhas florísticas em Goiás, no Distrito Federal, na porção sudoeste e sul de Minas Gerais, em Roraima, na Chapada  dos  Parecis, em  Rondônia, e na Serra do Cachimbo, no Pará. Em Minas Gerais, ocupa cerca de 3% da vegetação do Estado, o que inclui áreas de Belo Horizonte e região metropolitana, como a Serra do Curral, na capital, onde as altitudes podem chegar a 1500 m. 

A flora é muito heterogênea, representada por cerca de 4.000 espécies de plantas vasculares, com muitos endemismos. São formações herbáceo-arbustivas sempre verdes, com arbustos relativamente frequentes e árvores raras e isoladas, que crescem entre afloramentos de rochas quartzíticas, ferruginosas ou meta-conglomerados. Apesar de ocuparem menos de 1% do território nacional, os campos rupestres abrigam quase ⅓ de toda a flora brasileira (9000 espécies) - sendo 40% endêmica - números que mostram a descomunal biodiversidade desses ambientes. Em que pese a ocorrência restrita e a riqueza de espécies, mais da metade está fora de Unidades de Conservação. 

Placa explicativa dos campos ruprestres.

Campos ruprestres no Parque Nacional da Serra da Canastra (MG). 21/09/2023

Em Minas Gerais, exemplos de Unidades de Conservação onde os Campos Rupestres podem ser encontrados são o Parque Estadual do Biribiri (Diamantina), Parque Estadual do Rio Preto (São Gonçalo do Rio Preto), Parque Estadual da Serra do Rola Moça (Belo Horizonte, Ibirité, Nova Lima e Brumadinho), Parque da Serra do Curral (Belo Horizonte), Parque Estadual Floresta da Baleia (Belo Horizonte), Parque Nacional da Serra da Canastra (São Roque de Minas), Monumento Natural do Itatiaia (Ouro Preto e Ouro Branco), Parque Estadual Serra do Intendente (Conceição do Mato Dentro), Parque Estadual do Ibitipoca (Lima Duarte), entre outros. 

Campo Rupestre no Parque Natural Municipal do Tabuleiro.

Campo Rupestre no Parque Estadual Serra do Intendente, em Minas Gerais. 16/08/2024

Campo Rupestre no Parque Estadual do Biribiri.

Campo Rupestre no Parque Estadual do Biribiri, em Diamantina (MG).16/08/2024

Assim como ocorre na definição do Cerrado, os Campos Rupestres podem ser divididos em 2 categorias, de acordo com a abrangência da classificação: 

  • Stricto sensu: somente a vegetação com fisionomia campestre é considerada (campos graminosos, campos brejosos e afloramentos rochosos). Normalmente, esta terminologia é a mais utilizada;
  • Lato sensu: considera os campos rupestres como um conjunto de comunidades vegetais, associadas ao substrato de origem principalmente quatzítica e filítica, situados na Cadeia do Espinhaço em altitudes superiores à faixa de 900 metros. O complexo de fitofisionomias que caracteriza os campos rupestres inclui formações campestres, savânicas e até florestais, determinadas pelas variações do ambiente. 

Há, ainda a classificação entre Campos Rupestres Ferruginosos, caracterizados pela presença de grandes depósitos de minério de ferro, e Campos Rupestres Quartzíticos. Os primeiros são muito visados pelas mineradoras e têm alta relevância para a biodiversidade e recarga hídrica da Região Metropolitana de Belo Horizonte. 


Nos campos rupestres, o ambiente costuma ser desafiador. As plantas destes ambientes convivem com alta insolação, alta amplitude térmica, ventos fortes, terrenos irregulares de alta declividade, grande percolação de água pluvial e pouco acúmulo no solo, metais pesados e, normalmente por ação humana, há incidência de incêndios. Há uma série de restrições ao estabelecimento das plântulas, como: 

  • Solos: oriundos da decomposição de quartzitos e arenitos, sendo caracteristicamente arenosos, pedregosos, rasos, pobres, ácidos, com altos níveis de alumínio, secos e com baixa capacidade de retenção de água (o que causa estresse hídrico nas plantas), embora sejam ricos em minério (ferro, bauxita, manganês e ouro), de coloração escura nos horizontes superficiais, devido à acumulação de matéria orgânica. A baixa fertilidade ocorre por causa da perda de nutrientes por lixiviação, devido à alta drenagem com as chuvas fortes entre a primavera e o verão. 
  • Clima: tropical de altitude, com verões brandos marcados por alta precipitação (1000 a mais de 1500 mm) e a temperatura média anual oscilando entre 17 e 24ºC, tornando-se mais quente e seco em direção ao norte. Mesmo durante o inverno, nuvens carregadas de umidade fornecem orvalho, o que sugere flutuações de temperatura diárias marcantes. O inverno é bastante seco. 

Os campos rupestres apresentam alto endemismo e baixa dispersão, de forma que há muita especialização devido às condições ambientais extremas, que favorecem o surgimento de estratégias de sobrevivência, como adaptações fisiológicas e morfológicas dos vegetais.   


A flora tem porte baixo e marcante presença de folhas coriáceas, pilosas, dispostas de forma imbricada ou em roseta, sustentadas por troncos retorcidos, especialmente da família Melastomataceae, além de suculentas e cactos. São vegetações antigas formadas por poucas árvores baixas entre as rochas, porém há grande diversidade de arbustos. Como predominam no topo dos morros, há um dificultador para sua dispersão (os vales), o que também contribui no elevado processo de especiação. A fauna é formada, entre outras espécies, por raposas, veados, micos, capivaras, cobras e tatu-peba.


Literatura de apoio: Repositório da UFMG.

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