Efeito de Borda: o que acontece nos limites da floresta e sua contextualização para o município de Belo Horizonte
A borda de um fragmento florestal é a área mais exposta às ações humanas e às intermpéries do clima, resultado direto do processo de fragmentação da paisagem. Nessa região, as condições ambientais diferem significativamente do interior da floresta, gerando o que chamamos de efeitos de borda.
Esses efeitos envolvem mudanças tanto nos fatores bióticos (relacionados aos seres vivos) quanto nos abióticos (clima, solo, luz, umidade), modificando a estrutura e a composição da vegetação marginal. Entre as alterações mais comuns estão o aumento da luminosidade, da temperatura, da intensidade dos ventos, a redução da umidade relativa do ar, a maior vulnerabilidade a incêndios e a exposição à poluição. Como consequência, ocorrem transformações na estrutura da vegetação e na distribuição, riqueza, abundância e diversidade das espécies.
Próximo à borda, a vegetação costuma ser formada por plantas de menor porte, o que permite maior penetração de luz, tanto vertical quanto horizontal, além de facilitar a entrada da água da chuva no solo. Essas condições favorecem a germinação e o crescimento de espécies pioneiras, que se adaptam melhor a ambientes abertos. É um processo semelhante ao de abertura de uma clareira em uma mata fechada. Um exemplo de impacto característico é a presença abundante de lianas (trepadeiras), que prosperam em áreas de baixa umidade das bordas. Elas competem com as árvores por recursos, interferem no crescimento e na produção de frutos e podem causar quebra de galhos, provocando estresse e menor chance de sucesso das árvores.
No outro extremo, temos a área núcleo: a porção mais preservada do fragmento, distante o suficiente da borda para não sofrer seus efeitos. Nessas áreas, as condições são opostas às encontradas nas bordas, com menor incidência de luz sobre as plantas menores, favorecendo espécies clímax ou tardias. É aí que encontramos os ambientes mais sombrios e frescos, de aspecto mais selvagem, do fragmento.
A intensidade do efeito de borda depende da vulnerabilidade do fragmento à influência externa. Em ecologia da paisagem, esse impacto é avaliado por meio de índices que consideram, por exemplo, o perímetro e a densidade da borda. Fragmentos menores e com formato irregular apresentam maior proporção de borda em relação à área total, o que aumenta a influência externa e reduz o tamanho da área núcleo. Já fragmentos próximos ao formato circular minimizam a razão borda-área, mantendo o centro mais protegido.
Nas Florestas Estacionais Semideciduais, fitofisionomia mais comum na Grande Belo Horizonte, o efeito de borda pode se estender de 30 a 70 metros para dentro do fragmento, sendo que os primeiros 30 metros concentram os impactos mais intensos. Em outros tipos de floresta e em outros contextos, esse efeito pode chegar a centenas de metros, menores quanto mais distantes da região de contato do fragmento com o “exterior”.
Os efeitos de borda são comuns tanto em corredores ecológicos quanto em fragmentos isolados, que muitas vezes acabam reduzidos a habitats praticamente compostos apenas por borda — ambientes profundamente alterados e menos estáveis ecologicamente. Em grandes cidades, os parques urbanos são fragmentos florestais pequenos e irregulares o suficiente para serem considerados, basicamente, compostos por “vegetação de borda”.
Belo Horizonte apresenta pouco mais de 80 parques municipais institucionalizados e, se juntarmos as demais categorias de fragmentos florestais, há mais de uma centena de “pedaços de floresta” dentro do município. A grande maioria deles é de pequena dimensão e podem ser considerados parques de vegetação de borda, uma vez que praticamente não apresentam nenhuma área núcleo.
Conforme se observa no mapa abaixo, apenas algumas áreas do município têm potencial de apresentar áreas núcleo, como o Parque Estadual Serra Verde, o Parque Estadual da Baleia, o Parque Estadual Serra do Rola Moça, o Parque das Mangabeiras, a Estação Ecológica do Cercadinho e o Zoológico. Ainda assim, é necessário estudo para determinar a realidade das áreas naturais livre de influência antrópica em Belo Horizonte, que devem ser pouquíssimas:
Literatura de apoio:
LUCAS, Douglas Felipe. Análise espacial dos fragmentos florestais no município de São Gonçalo do Rio Abaixo/MG. 2011. 45 f. Monografia (Especialização) - Curso de Especialização em Geoprocessamento, Cartografia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/BUBD-955MYG/1/douglas_felipe_lucas_2011.pdf. Acesso em: 13 ago. 2025.
SILVA, Vanuza Pereira Garcia da; MARIANO, Gabriel Venâncio Pereira; SANTOS, Ana Flávia Costa; SANTOS, Lilian Cristina da Silva; COSTA, João Paulo; VAZ, Ana Carolina Ribeiro; VALE, Vagner Santiago do; ROCHA, Ednaldo Cândido. Estrutura da comunidade arbórea e efeito de borda em Florestas Estacionais Semideciduais. Ciência Florestal, [S.L.], v. 31, n. 3, p. 1216-1239, 6 set. 2021. Universidade Federal de Santa Maria. http://dx.doi.org/10.5902/1980509836234. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/cienciaflorestal/article/view/36234. Acesso em: 13 ago. 2025.
