Biologia da Paisagem

Visitação de área queimada.

A tragédia anunciada das florestas em chamas

Todos os anos, sem exceção, o Brasil arde em chamas durante a estação seca de inverno. Principalmente entre os meses de agosto e setembro - muitas vezes avançando em parte de outubro - período em que a vegetação do país está sob intenso estresse hídrico causado pela seca acumulada desde o mês de maio, os focos de incêndio alcançam níveis alarmantes e são notícia na mídia nacional e internacional.   


Além de comprometerem a qualidade ambiental do país, especialmente quanto aos biomas, à fauna e a flora, os incêndios agravam as mudanças climáticas em andamento e provocam grandes nuvens de fumaça em diversos estados, que podem ter milhares de quilômetros de extensão e deixar metade do país sob céu opaco. A situação só melhora substancialmente quando as chuvas da primavera avançam pelo centro do país, o que pode variar desde meados do mês de setembro até em algum momento do mês de outubro. É esse timing do retorno das precipitações que marca até quando a temporada de fogo avança.  

Minas Gerais, devido ao predomínio do clima tropical (de altitude, típico ou semi-árido), apresenta uma estação seca marcante entre o outono e o inverno, período em que ocorrem quase todas as ocorrências de focos de fogo no estado, com maior frequência entre julho e setembro. A partir de outubro, o fogo tende a perder força com as chuvas da primavera, mas a primeira metade do mês ainda exige muita atenção. Para os órgãos ambientais do estado, como o Instituto Estadual de Florestas, o período considerado crítico para os incêndios é maio a outubro. 

Incêndio em área brejosa na Lagoa da Pampulha.

Incêndio em área brejosa na Lagoa da Pampulha, em BH onde, antes, havia o predomínio de taboas. 28/08/2022

Essa concentração de incêndios florestais na segunda metade do inverno e começo da primavera ocorre devido à vegetação estar bastante desidratada após os meses anteriores já secos. Mas por que o fogo demora um tempo para se espalhar pelo país? Nos primeiros meses após o verão (até parte de julho), a vegetação ainda mantém relativa umidade e permanecem verdes. Outro aspecto notável é que, após verões muito chuvosos, a chance de incêndios severos pode aumentar na estiagem seguinte, devido à maior presença de combustível (como os brigadistas chamam o “mato” seco propício a pegar fogo). 


O combate ao fogo é uma das principais atribuições dos gerentes das Unidades de Conservação durante o outono e o inverno em Minas Gerais, em conjunto com diversos agentes públicos (corpo de bombeiros, defesa civil, brigadas profissionais e voluntárias, SAMU, etc). Neste combate, pode ser necessário um SCO (Sistema de Comando em Operações), para organização de ações de combate mais sérios sob um comando central. É acionado especialmente em casos que podem fugir do controle.  

Visitação de área queimada.

Visitação e monitoramento de área de Cerrado queimada na RPPN Colina dos Tucanos - região de Ravena - Sabará (MG).

O fogo pode se manifestar de forma irregular nas áreas afetadas, com pontos completamente queimados e outros mais poupados relativamente próximos e mesmo dentro do perímetro atingido pelo incêndio. De forma mais ampla, topos e encostas costumam ser mais afetados que os vales, uma vez que estes apresentam vegetação mais densa e hidratada em função da maior possibilidade de haver presença de corpos d’água nesses locais e do acúmulo de umidade, como os nevoeiros de irradiação.  


Em Minas Gerais, em função da característica semidecidual e menos densa das florestas, estas ficam propícias a queimarem por completo - e não só as áreas campestres e savânicas. É comum observar arbustos e até árvores completamente pulverizadas em ocorrências de grandes proporções. No caso das árvores mais altas, parte do tronco fica escurecido em função da passagem do fogo e, eventualmente, podem cair.  


É neste contexto que se manifesta as adaptações das plantas a essa condição periódica de fogo, especialmente as do Cerrado, uma vez que este bioma apresenta uma estação seca muito marcante no inverno. Algumas plantas evoluíram junto do fogo e, por esse motivo, acumularam caracteres adaptativos, como a casca grossa de várias espécies, que protegem o interior das plantas (queimam enquanto o fogo passa e depois caem, diminuindo o contato com o cerne do vegetal com o calor).  

Adaptação ao fogo.

A casca das árvores do cerrado são características adaptativas muito importantes na proteção da planta contra o fogo. Ao fundo, RPP Colina dos Tucanos (Sabará - MG). Outubro/2023


Apesar de, tradicionalmente, o fogo ser usado para a limpeza de lotes e até como forma de fertilização - por meio das cinzas que ficam depositadas na superfície, vale lembrar que ele consome e mata a microbiota do solo, como formigas, minhocas, cupins, bactérias e fungos, inclusive os micorrízicos, atuantes no processo de fixação de nitrogênio. O solo torna-se um grande corpo inerte e demora mais para recuperar suas propriedades. Bancos de sementes também podem ser parcial ou totalmente perdidos. 


Uma área devastada pelo fogo torna-se, temporariamente, um deserto, sem vida e sem esperança. Na ausência de plantas, não se observam animais, nem movimento, nem barulho. Nem o vento, já que não há folhas para balançar. 
- Leonardo Correa

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